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Carta de demissão e reflexão sobre a crise da CES

  • Mary Layoun
  • 2 de jan.
  • 4 min de leitura

Por Mary N. Layoun 2 janeiro, 2025


Querido Boa,


Feliz ano novo – um novo ano que, espero, traga um pouco de justiça e paz a este nosso triste mundo.


No contexto desse mundo triste, escrevo-te por duas razões. A primeira é para exprimir a minha profunda preocupação com a tua própria situação – o impacto devastador sobre a tua pessoa, o teu nome e a tua reputação internacional exemplar causado pelos acontecimentos que começaram há quase dois anos. Refiro-me ao artigo calunioso que apareceu numa antologia da Routledge e que a própria editora subsequentemente retirou. Imediatamente iniciou a direção do CES um frenesim de reacções mal concebidas e mal comunicadas que fizeram uma farsa do devido processo, da justiça e da comunidade intelectual. De igual modo fizeram da noção de liderança com princípios e imparcialidade uma autêntica farsa.


Não estou a dizer isto de forma retórica ou hiperbólica. Como membro da Unidade de Acompanhamento Externo do CES nos últimos cinco anos, eu – juntamente com os meus colegas internacionais – tenho tido reuniões anuais com os grupos de investigação do CES e com os seus membros individualmente, bem como com as equipas de liderança do CES. Lemos inúmeros relatórios e propostas gerados pelo CES. E escrevemos relatórios sobre as nossas observações. Observámos as enormes realizações do Centro que tu fundaste e dirigiste até há cinco ou seis anos, e a notável estima internacional que granjeaste em vários países e povos. Por isso, foi com grande consternação que observei a forma como a direção do CES geriu de forma grosseira uma situação reconhecidamente difícil. Intencionalmente – ou talvez não intencionalmente, embora eu tenha profundas dúvidas sobre esta última hipótese – encorajaram e participaram numa corrida frenética para o julgamento por parte das instituições académicas e políticas e dos meios de comunicação social, com base em rumores, insinuações e afirmações sem fundamento. Os últimos dois anos têm sido uma lição impressionante – como se precisássemos de tal lição – de alardes de virtude vingativa, má-fé e desonestidade.


Não foi só em Portugal ou no CES que verdadeiras caças às bruxas se apoderaram da atenção pública e tiveram consequências devastadoras para aqueles que foram considerados culpados porque acusados – sem provas nem oportunidade para se defenderem. (A obra de John Putnam Demos sobre os julgamentos de bruxas na Europa e nos EUA, Entertaining Satan, e outras ferozes fúrias paralelas mais contemporâneas, The Enemy Within, são lembretes sóbrios de como tais frenesis funcionam).


E não é pouca a ironia da situação que te atinge a ti e ao teu trabalho. Porque tu sempre chamaste a atenção para as formas como o patriarcado funciona em conjunto com o colonialismo e o capitalismo. No entanto, no rescaldo da fúria crescente de acusações caluniosas, os danos causados à tua posição internacional pelo furor da difamação são gravíssimos. Mesmo as pessoas e instituições que sabem que as acusações são caluniosas calam-se por medo de serem elas próprias acusadas – como instituições ou como pessoas. (A tempestade mediática e a difamação pública que está a ocorrer são, mais uma vez ironicamente, uma espécie de testemunho perverso do poder das tuas ideias e do teu trabalho. Está a ser gasto muito tempo, dinheiro e energia para lançar acusações contra ti). E assim os convites para ti desaparecem; a publicação do teu trabalho é adiada; prémios de prestígio são ameaçados.


Uma vez que tudo foi tão caluniosamente distorcido, tão desproporcionado, só espero que as páginas de documentação que tu reuniste para te defenderes sejam cuidadosamente lidas e consideradas. É fundamental que as acusações e os julgamentos se baseiem numa análise cuidadosa das provas e da documentação. Se isso puder ajudar, terei todo o gosto em invocar as deusas gregas da Justiça, Θέμις e a sua filha Δίκη, quando regressar a casa na Grécia. Mas, por favor, diz-me se há algo mais que eu possa fazer.


Finalmente, chego à segunda razão que me leva a escrever-te – que deriva inequivocamente da primeira. Sei que te demitiste recentemente do cargo de Diretor Emérito do CES. E que, posteriormente, Graça Capinha, João Arriscado Nunes, António Sousa Ribeiro, Adriana Bebiano e Maria Irene Ramalho também se demitiram. Eu, por minha vez, não posso continuar a trabalhar de boa fé com aquilo em que o CES se tornou – mais um instrumento institucional de repressão e injustiça, de “julgamento” por boatos histéricos e acusações sem fundamento. (Digo isto com profunda tristeza). Por isso, quero comunicar-te que vou demitir-me publicamente da Unidade de Acompanhamente Externo do CES. Assim que regressar à Grécia, escreverei uma carta ao actual diretor, com cópia para todos os dirigentes do CES. Já não tenho qualquer esperança de que eu e os meus colegas da UAE consigamos persuadir as equipas dirigentes do CES e os signatários das cartas de que existem outras formas mais justas e equilibradas de actuação.


Mais uma vez, lamento profundamente dizer tudo isto. E, apesar de tudo, envio-te os meus melhores votos de um ano novo melhor. Em tempos sombrios, como diz Brecht, ainda cantaremos.


Mary N. Layoun,

Professora Emérita de Literatura Comparada

Universidade de Wisconsin, Madison

 
 
 

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